paulo caldas

A obra deriva 72 reúne a bailarina Carolina Wiehoff e o coreógrafo Paulo Caldas num solo por ela performado a partir de referências tomadas de um dos dramatículos de Samuel Beckett: a obra Not I, estreada em 1972, e que teve uma versão para TV produzida e apresentada pela BBC em 1976. A obra – cujo título completo seria "Deriva a partir da obra Not I, de Samuel Beckett, de 1972" – não se ocupa da encenação da matriz beckettiana, mas desdobra dela estados do corpo e da cena. Não se trata de uma montagem de Not I. O corpo da performer – à maneira de várias figuras que frequentam a obra do escritor – é um corpo de pouca mobilidade: 55 anos (47 em dança), artroses avançadas, placa metálica no punho e próteses nos dois quadris configuram um corpo que procura outros modos de mover.
Nosso propósito nesta obra coreográfica é recuperar desde o corpo em movimento aquele que é também o desejo declarado do próprio Samuel Beckett: o de que Not I se dirigisse “menos ao entendimento do que aos nervos do público”. Conspiramos, portanto, com problematizações recorrentes no dramaturgo, que tem sua obra marcada pelo paradoxo entre uma insistência no uso frequentemente verborrágico das palavras e a incapacidade de elas expressarem; é conhecido o dito de Beckett quanto a esta dimensão presente em sua obra: “A expressão de que não há nada a expressar, nada com o que expressar, nada a partir do que expressar, nenhum poder a expressar, nenhum desejo a expressar, junto com a obrigação de expressar”. Este Deriva 72 – criado na zona de fronteira entre teatro e dança – propõe, portanto, uma investigação que, a partir de Not I, toma emprestados alguns elementos caros à dramaturgia beckettiana, que assumimos como eminentemente coreográficos: as intensidades, as rítmicas, as musicalidades, as espacialidades, as corporeidades instituídas segundo princípios de fragmentação, distorção e contenção. Deriva 72 é um encontro entre corpo e tempo. É o testemunho de uma bailarina que dança com as marcas da vida, não contra elas. Cada gesto traz consigo a memória de uma carreira e o frescor de uma reinvenção. Carolina Wiehoff dança como quem atravessa cicatrizes, metálica e humana, enquanto Paulo Caldas traça a dramaturgia em linhas de contenção, fissuras e repetições. Se Beckett nos ensinou que a palavra pode ser fragmento, aqui é o corpo que se abre em estilhaços e recomeços. Deriva 72 é sobre persistir — na arte, na cena, na vida.Esta criação é um importante marco para os artistas: é a primeira desde seu estabelecimento em Fortaleza (CE), onde bailarina e coreógrafo passaram a residir em 2011. De certo modo, trata-se de uma retomada.
Carolina Wiehoff começou a dançar profissionalmente em 1988 na Companhia de Dança Fim de Século, dirigida pelo coreógrafo Renato Vieira. Em 1996, ingressou na Companhia de Dança Deborah Colker, onde permaneceu até 2003, participando dos processos de criação e apresentações nacionais e internacionais de espetáculos como "Mix", "Rota", "Casa" e "4 por 4". Em 1997, foi indicada para o Prêmio RioDança como melhor bailarina pelo espetáculo "Casa". Foi assistente de Deborah Colker na remontagem de Casa na Komische Oper de Berlim. Foi bailarina convidada do Atelier de Coreografia, de João Saldanha, no espetáculo "Soma", em 2005. Foi professora do curso de graduação em Dança da UniverCidade, no Rio de Janeiro, e do Centro de Movimento Deborah Colker de 2004 a 2009. É pós-graduada em “Estudos Avançados em Dança Contemporânea: Coreografia e Pesquisa” pela UniverCidade. Desde 2004, quando passou a integrar a companhia Staccato, dirigida por Paulo Caldas, vem atuando junto a ele como performer, pesquisadora e assistente de coreografia em diversos projetos. Fez a pesquisa de movimento dos espetáculos “Iracema” e “Tudo passa sobre a terra” de Rosa Primo/CE. Ministra regularmente oficinas e cursos livres, e foi coordenadora do Curso Técnico em Dança da Escola Porto Iracema das Artes. (2020/2021).

Necessidades técnicas:
Área cênica: 6m x 8m (preferencialmente);
Altura das varas: 4m (mínimo, em razão da distância necessária para uma projeção zenital de vídeo feita sobre a cena);
Vestimentas do palco: linóleo, pernas e rotunda pretos;
Iluminação (disposta em 4 ou 5 varas): 8 refletores elipsoidais (com shutters e íris); 8 refletores Fresnel (com barndoor);
Tempo de Montagem: 06 horas;
Tempo de Desmontagem: 01 hora;
Material fornecido pela nossa produção (sem ônus de transporte): Projetor de vídeo; tecido preto (para uso cenográfico);
Equipe: 3 integrantes.